domingo, 4 de setembro de 2011

Voltando a beber muito


Em toda esta trajetória, alguns meses se passaram. Eu estava muito machucado com todos esses acontecimentos. Mas continuava firme com o propósito de não beber mais. Muitas provações, muitos obstáculos, mas graças a Deus superei a todos. Até que um dia tivemos a oportunidade de sair do aluguel. Tínhamos que agir. Próximo ao Paranoá existe uma grande área da União, os inquilinos do Paranoá a muito lutavam por uma moradia. Várias manifestações. Ficavam dias acampados com barraquinhas de lona na praça central e gritavam palavras de ordem: “QUEREMOS MORADIA!” esta luta durou várias décadas. E eu já tinha morado de aluguel em quase todas as quadras do Paranoá, não que eu fosse um mau inquilino, mas tinha que procurar um preço mais em conta. Inclusive morei um tempo na casa da minha vó com dona Antônia, só nesse momento era diferente, estávamos pagando aluguel. Não havia possibilidades de humilhações como outrora. Sentia-me independente, estava trabalhando, com uma esposa responsável. Não estava bebendo, estava totalmente mudado. Isso me alegrava muito. Estava completando um ano na empresa. Recebi o aviso de férias. Puxa vida! Que Felicidade! Vou tirar férias! Combinei então com Dona Antônia que assim que saísse o aviso de férias iríamos procurar um lote na invasão. Dois dias depois vieram as férias. Já estava tudo combinado, com o dinheiro das férias compraremos um lote, caso não consigamos invadir um. Mas infelizmente tive um triste empecilho. Fui à empresa, peguei o dinheiro das férias. Eu estava muito feliz, minhas primeiras férias. Dona Antônia tinha saído do serviço, mas estávamos conseguindo manter a casa, ainda que o salário não fosse muito bom. Mesmo assim estava super feliz.
De repente, tive uma idéia: poderia tomar uma cerveja e parar, simplesmente para comemorar. Uma cervejinha não iria me fazer mal algum tão pouco me deixaria embriagado. Puxa, dona Antônia vai ficar super triste comigo. Ah, ela nem precisa ficar sabendo. Mas ela vai perceber. Hum! Nada que umas balinhas de hortelã e um ou dois cravinhos não resolvam, afinal não sou de ferro. Já tem mais de um ano que não bebo. Eu mereço tomar uma inofensiva cervejinha. Travei essa luta comigo mesmo, bebi. Como diz uma inofensiva cerveja não faria mal nenhum. Tudo bem! Cheguei ao bar, aproximei-me do balcão. As pessoas que ali estavam me encararam com espanto, pois muitos deles já haviam me convidado para beber e sempre respondia que tinha parado.  Estava um pouco inseguro, com medo. Não sei ao certo. Mas sentia que eu estava iniciando a minha própria cova. Mesmo assim falei: “uma cerveja, por favor!” Trouxeram-me a cerveja. Tomei um copo, detalhe, em um só gole. Dois copos, dois goles. Três copos, três goles. E assim foi. Alguns diziam: “Puxa, ele estava com muita sede para beber.” Confesso que estava sim. Comecei a entrar nas conversas, nas piadas, nos risos. Em todos os assuntos que rolavam. Outra cerveja, outra mais. Pinga, cigarro. Põe uma para o amigo. Nisto, quando me dei por mim estava andando descalço, sem camisa, todo sujo. E o pior, três dias haviam se passado. Não sabia ao menos o que havia acontecido e toda aquela alegria que havia sentido antes se transformara em lágrimas e arrependimento. Porque fui beber? Não era para ser assim. Por quê? Lembrei-me do dinheiro das férias. Meti a mão no bolso e nada. Deve estar no outro bolso, pensei. Nada! E agora? Bêbado, eu perdi todo o dinheiro. E dona Antônia, onde estará agora? Afinal faz três dias que não vou em casa. E só fiquei sabendo que dia era por ter perguntado e alguém me respondeu que era domingo. Levei um grande susto pois tinha saído de casa na sexta pela manhã.
Eu estava angustiado, muita tristeza. E agora o que farei? Voltarei para casa, contarei tudo à dona Antônia que com certeza irá me compreender. Passei no mesmo boteco e perguntei o que havia acontecido comigo, pois de alguma forma eu queria recuperar o dinheiro ou saber se haviam me roubado e quem havia me roubado. Afinal, não havia possibilidade de ter gasto todo aquele dinheiro com bebida. Alguém tinha me roubado e eu queria descobrir quem foi que fez isto. Infelizmente, não consegui ajuda alguma naquele bar. O que me disseram foi: “Você pagou a sua conta e disse que iria para casa. Porque iria sair do aluguel, iria morar na invasão.” Perguntei-lhes se eu teria saído sozinho. “Que eu saiba sim! Ninguém saiu com você!” Bom, se aquele homem estava mentindo ou não eu não sei. Se estiver mentindo o futuro dirá. Mas estava com uma tremenda ressaca. Quem bebe sabe, um bom remédio para uma ressaca é outra bebida. Mas infelizmente eu estava sem nenhuma moeda. Alguém havia me roubado. Pedi para aquele homem uma pequena dose que depois eu pagaria, pois já não agüentava mais. Ele me vendeu aquela dose. Fui então para casa.
Chegando em casa dona Antônia estava lavando roupas. Eu morava na casa da minha vó de aluguel. Ela, dona Antônia, correu ao meu encontro e abraçou-me, beijou-me e começou a chorar. Chorando agradecia a Deus dizendo: “Obrigado meu Deus por guardar ele, obrigado!” Levou-me para dentro, deu-me um banho. Fez um caldo de ovo e me deu. Pois eu estava muito fraco. Quando estou bebendo não me alimento, e ela sabia disso. Eu quis comentar alguma coisa, tentar me justificar de alguma maneira sobre o que havia acontecido.  Ela simplesmente me dizia: “Não fale nada agora. Durma um pouco, depois conversamos. Não se preocupe, está tudo bem.” Eu pensava: “Coitada, quando ela souber que o dinheiro das férias não estava mais comigo. Que Gastei tudo ou que fui roubado. Não sei não. Mas ela vai ficar muito triste comigo.” Eu não sabia em hipótese alguma o que realmente havia acontecido comigo. Nisto ela saiu, voltou para o tanque e continuou lavando as roupas. Eu fiquei ali deitado e adormeci. O emprego estava salvo, pois estava de férias. Dormi o restante daquele dia e durante toda a noite.
Acordei na manhã seguinte, bem cedo. Tomei um banho, sentei-me ao lado de Dona Antonia. Ela dormia como criança. Passei as mãos em seus cabelos e comecei a chorar. Perguntava-me porque fui beber? Ela já estava acreditando em mim. Agora esta decepção. Por quê?
Dona Antônia foi despertando. Olhou para mim, deu-me um belo sorriso e disse-me:
- Não chore, você vai conseguir. Não se perturbe com nada, tudo vai voltar ao normal.
Eu não suportava, simplesmente chorava muito. Não tinha como conter as lágrimas. Foi então que eu disse:
- Toinha, eu perdi todo o dinheiro das férias. Gastei ou alguém me roubou. Não sei, perdi. Não tem mais como sairmos do aluguel. Agora me desculpe. Mais uma vez coloquei tudo a perder.
Ela olhou para mim, levantou-se e me deu aquele abraço apertado. E falou baixinho ao ouvido:
- Está comigo.
Levei um tremendo susto.
- O que? Está com você?
Ela disse:
- Olha João, na sexta-feira a minha irmã te viu lá no Zé Gatinho (Local onde comecei a beber, Zé Gatinho era o proprietário do bar e gostava de humilhar os bêbados, principalmente quando não tinham dinheiro para beber. Lembro-me que quando vivia com a Maria José, chegava a seu bar implorava uma dose, mas como estava sem dinheiro, ele não dava, mas dizia, posso até te dar uma dose se você ficar um tempo lá fora dizendo bem alto: “Eu sou corno, a minha mulher me traiu com o pastor da igreja.” E eu fazia isso por uma dose.) bebendo e veio correndo me avisar. Eu disse a ela que não acreditava, mas mesmo assim fui averiguar. Saí daqui chorando, sem acreditar. Tomara que não seja ele. Ai meu Deus, dá-me forças para ajudá-lo. Preciso ser forte. Fui correndo. Chegando lá, vi você. Comecei a me tremer toda. Sem querer acreditar. Já fazia mais de um ano que você não bebia. De repente, te vi ali. Totalmente embriagado. Falando coisa com coisa. Ninguém compreendia o que você falava. A única coisa que eu entendia era: essa é minha esposa. Perguntei-lhe sobre o dinheiro, você meteu a mão no bolso e me entregou tudo. Perguntei ao Zé gatinho se você já havia pagado a conta. Ele respondeu-me que não. Paguei e pedi a ele que nada lhe falasse a respeito do dinheiro. Pois tinha certeza de que você não se lembraria de nada do que estava acontecendo. E ele me jurou que nada contaria a você. Ao mesmo tempo, eu tinha medo de você melhorar e com o efeito da ressaca, pegar o dinheiro de volta e gastar tudo. Tentei trazer-te de volta para casa. Porém, você dizia que mulher não te domina e que iria quando quisesse. Você falava enrolado, mas dava para entender. De repente você rasgou sua camisa. Confesso que naquele momento fiquei com muito medo de você. Você me olhava com os olhos arregalados, como se estivesse com muita raiva de mim. Naquela hora, pedi muita proteção a Deus, com medo de que você fosse me agredir. Tudo bem, meu velho. Você não quer ir agora, depois você vai. Estarei te esperando em casa. Eu chorava muito. Não queria chorar, mas não dava para me controlar. Desculpe-me meu valho por eu ter ido atrás de você, me perdoa. Porém, eu sabia que outros poderiam se aproveitar da situação e gastaria todo o seu dinheiro. Por isso eu fui atrás de você. Fui também por não acreditar em minha irmã. E sobre os seus sapatos e meias, fiquei sabendo que você os apostou em uma queda de braço e os perdeu.
Eu perguntei a ela:
- E depois disso, o que aconteceu?
Ela respondeu-me:
- Você saiu do bar, deitou na calçada e ali dormiu. Eu voltei para casa imaginando que quando você acordasse retornaria. A tardezinha eu voltei ao bar do é Gatinho e não te encontrei. Perguntei ao Zé Gatinho que me disse:
- Ele levantou, veio e me pediu uma pinga, eu lhe disse, primeiro o dinheiro. Meteu a mão no bolso, não encontrando nada, me pediu fiado. Implorou-me, mas eu não vendi. Disse até que falaria que era corno no meio da rua, para ganhar a pinga. Essa história de dizer que era corno era uma brincadeira que eu fazia com ele há muito tempo atrás. Mas não se preocupe dona Antonia, em consideração a senhora, a partir de hoje, ele mesmo pagando ou outra pessoa pagando para ele, em meu estabelecimento ele não bebe mais. Não o proibirei que entre, porém ele não bebe mais aqui dentro. A senhora vai conseguir, e eu vou te ajudar.
Dona Antônia continuou dizendo:
- Nisto eu saí, procurei-te em vários lugares, mas infelizmente não consegui te encontrar. E também por que já estava ficando tarde, e como você sabe aqui é muito perigoso. Chegando a casa, passei a noite pedindo a Deus para que te guardasse. Quando amanheceu te vi lá na roda. Conversei um pouco com você e tentei trazer-te de volta. Mas você não veio. Lá você dormia, acordava, bebia. Embriagava-se de novo. Eu levava comida, porém você não comia. Dava para os outros. Oh meu velho, como eu chorei por te ver assim de novo. Anoitecia e você sumia. Até que um dos que bebia com você me disse que você teria ido dormir na Zefa (espécie de abrigo dos desabrigados) dormia lá e não sabia. Não via quando chegava e nem quando saía (amnésia alcoólica). Até que no domingo você resolveu voltar. Isso foi o que aconteceu meu velho.
Por dentro de mim havia um tremendo vazio. A tristeza, o arrependimento. Os porquês daquilo tudo. Era uma grande luta. Tudo bem, não perdi o dinheiro, nem ninguém tinha me roubado. O dinheiro estava salvo. Porém, eu via o sofrimento de dona Antonia. Eu queria cuidar dela. Ela tinha tido uma vida de muito sofrimento. Um casamento desfeito. Ela tinha uma filha que a justiça havia determinado que ficasse com o pai. Por ela não aceitar, entrou numa tremenda depressão. Sendo ela obrigada por isso usar camisa de força. Sendo internada como louca. E agora eu? Como poderia causar todo esse sofrimento a ela. Isso não podia continuar assim. Eu tinha que erguer a cabeça. Ter firmeza e cuidar bem dela. Pois ela merece tudo de bom. Durante todo esse tempo simplesmente provou com tudo que me amava. Conservarei esse amor por toda a minha vida. E prometo que nunca tirarei a sua felicidade, independente do que aconteça.
Toda essa linha de pensamento eu iria fazer de tudo para conseguir cumprir. Mais uma vez dona Antonia me ajudou, mesmo eu não merecendo. Eu estava de férias e queria aproveitar o tempo para fazer alguma coisa. Pois quando eu voltasse a trabalhar o meu tempo ficaria reduzido. Falei com dona Antonia:
- Graças a Deus e a você o dinheiro foi salvo. E você sabe, a gente termina gastando sem nem perceber. Vamos até a invasão ver se conseguirmos um lote. Porque pelo que estou sabendo toda a área já foi invadida.
Nesta hora, tive uma surpresa, porque dona Antonia já tinha resolvido tudo. Naquele domingo bem cedinho ela já tinha ido à invasão, comprado um lote e pediu para alguém cuidar até que ela voltasse comigo para limpá-lo.
Neste momento, chegou a hora de dar aquele abraço bem apertado em dona Antonia, olhando profundamente em seus olhos e dizer: Obrigado. Ela me disse:
- Meu velho, o que eu mais quero nessa vida é um lugar para morar. Cansei de aluguel. Tenho certeza que abaixo de Deus, é você que irá realizar o meu sonho.
Respondi-lhe:
- Nós iremos realizar. E prometo que jamais desistirei dos teus sonhos. Aconteça o que acontecer nós conseguiremos a nossa casa. Esse será o seu presente, em forma de gratidão, por tudo o que você tem feito por mim.

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