Em toda esta trajetória, alguns meses se
passaram. Eu estava muito machucado com todos esses acontecimentos. Mas
continuava firme com o propósito de não beber mais. Muitas provações, muitos
obstáculos, mas graças a Deus superei a todos. Até que um dia tivemos a
oportunidade de sair do aluguel. Tínhamos que agir. Próximo ao Paranoá existe
uma grande área da União, os inquilinos do Paranoá a muito lutavam por uma
moradia. Várias manifestações. Ficavam dias acampados com barraquinhas de lona
na praça central e gritavam palavras de ordem: “QUEREMOS MORADIA!” esta luta
durou várias décadas. E eu já tinha morado de aluguel em quase todas as quadras
do Paranoá, não que eu fosse um mau inquilino, mas tinha que procurar um preço
mais em conta. Inclusive morei um tempo na casa da minha vó com dona Antônia,
só nesse momento era diferente, estávamos pagando aluguel. Não havia
possibilidades de humilhações como outrora. Sentia-me independente, estava
trabalhando, com uma esposa responsável. Não estava bebendo, estava totalmente
mudado. Isso me alegrava muito. Estava completando um ano na empresa. Recebi o
aviso de férias. Puxa vida! Que Felicidade! Vou tirar férias! Combinei então
com Dona Antônia que assim que saísse o aviso de férias iríamos procurar um
lote na invasão. Dois dias depois vieram as férias. Já estava tudo combinado,
com o dinheiro das férias compraremos um lote, caso não consigamos invadir um.
Mas infelizmente tive um triste empecilho. Fui à empresa, peguei o dinheiro das
férias. Eu estava muito feliz, minhas primeiras férias. Dona Antônia tinha
saído do serviço, mas estávamos conseguindo manter a casa, ainda que o salário
não fosse muito bom. Mesmo assim estava super feliz.
De repente, tive uma idéia: poderia
tomar uma cerveja e parar, simplesmente para comemorar. Uma cervejinha não iria
me fazer mal algum tão pouco me deixaria embriagado. Puxa, dona Antônia vai
ficar super triste comigo. Ah, ela nem precisa ficar sabendo. Mas ela vai
perceber. Hum! Nada que umas balinhas de hortelã e um ou dois cravinhos não
resolvam, afinal não sou de ferro. Já tem mais de um ano que não bebo. Eu
mereço tomar uma inofensiva cervejinha. Travei essa luta comigo mesmo, bebi.
Como diz uma inofensiva cerveja não faria mal nenhum. Tudo bem! Cheguei ao bar,
aproximei-me do balcão. As pessoas que ali estavam me encararam com espanto,
pois muitos deles já haviam me convidado para beber e sempre respondia que
tinha parado. Estava um pouco inseguro,
com medo. Não sei ao certo. Mas sentia que eu estava iniciando a minha própria
cova. Mesmo assim falei: “uma cerveja, por favor!” Trouxeram-me a cerveja.
Tomei um copo, detalhe, em um só gole. Dois copos, dois goles. Três copos, três
goles. E assim foi. Alguns diziam: “Puxa, ele estava com muita sede para
beber.” Confesso que estava sim. Comecei a entrar nas conversas, nas piadas,
nos risos. Em todos os assuntos que rolavam. Outra cerveja, outra mais. Pinga,
cigarro. Põe uma para o amigo. Nisto, quando me dei por mim estava andando
descalço, sem camisa, todo sujo. E o pior, três dias haviam se passado. Não
sabia ao menos o que havia acontecido e toda aquela alegria que havia sentido
antes se transformara em lágrimas e arrependimento. Porque fui beber? Não era
para ser assim. Por quê? Lembrei-me do dinheiro das férias. Meti a mão no bolso
e nada. Deve estar no outro bolso, pensei. Nada! E agora? Bêbado, eu perdi todo
o dinheiro. E dona Antônia, onde estará agora? Afinal faz três dias que não vou
em casa. E só fiquei sabendo que dia era por ter perguntado e alguém me
respondeu que era domingo. Levei um grande susto pois tinha saído de casa na
sexta pela manhã.
Eu estava angustiado, muita tristeza. E
agora o que farei? Voltarei para casa, contarei tudo à dona Antônia que com
certeza irá me compreender. Passei no mesmo boteco e perguntei o que havia
acontecido comigo, pois de alguma forma eu queria recuperar o dinheiro ou saber
se haviam me roubado e quem havia me roubado. Afinal, não havia possibilidade
de ter gasto todo aquele dinheiro com bebida. Alguém tinha me roubado e eu
queria descobrir quem foi que fez isto. Infelizmente, não consegui ajuda alguma
naquele bar. O que me disseram foi: “Você pagou a sua conta e disse que iria
para casa. Porque iria sair do aluguel, iria morar na invasão.” Perguntei-lhes
se eu teria saído sozinho. “Que eu saiba sim! Ninguém saiu com você!” Bom, se
aquele homem estava mentindo ou não eu não sei. Se estiver mentindo o futuro
dirá. Mas estava com uma tremenda ressaca. Quem bebe sabe, um bom remédio para
uma ressaca é outra bebida. Mas infelizmente eu estava sem nenhuma moeda.
Alguém havia me roubado. Pedi para aquele homem uma pequena dose que depois eu
pagaria, pois já não agüentava mais. Ele me vendeu aquela dose. Fui então para
casa.
Chegando em casa dona Antônia estava
lavando roupas. Eu morava na casa da minha vó de aluguel. Ela, dona Antônia,
correu ao meu encontro e abraçou-me, beijou-me e começou a chorar. Chorando
agradecia a Deus dizendo: “Obrigado meu Deus por guardar ele, obrigado!”
Levou-me para dentro, deu-me um banho. Fez um caldo de ovo e me deu. Pois eu
estava muito fraco. Quando estou bebendo não me alimento, e ela sabia disso. Eu
quis comentar alguma coisa, tentar me justificar de alguma maneira sobre o que
havia acontecido. Ela simplesmente me
dizia: “Não fale nada agora. Durma um pouco, depois conversamos. Não se
preocupe, está tudo bem.” Eu pensava: “Coitada, quando ela souber que o
dinheiro das férias não estava mais comigo. Que Gastei tudo ou que fui roubado.
Não sei não. Mas ela vai ficar muito triste comigo.” Eu não sabia em hipótese
alguma o que realmente havia acontecido comigo. Nisto ela saiu, voltou para o
tanque e continuou lavando as roupas. Eu fiquei ali deitado e adormeci. O
emprego estava salvo, pois estava de férias. Dormi o restante daquele dia e
durante toda a noite.
Acordei na manhã seguinte, bem cedo.
Tomei um banho, sentei-me ao lado de Dona Antonia. Ela dormia como criança.
Passei as mãos em seus cabelos e comecei a chorar. Perguntava-me porque fui
beber? Ela já estava acreditando em mim. Agora esta decepção. Por quê?
Dona Antônia foi despertando. Olhou para
mim, deu-me um belo sorriso e disse-me:
- Não chore, você vai conseguir. Não se
perturbe com nada, tudo vai voltar ao normal.
Eu não suportava, simplesmente chorava
muito. Não tinha como conter as lágrimas. Foi então que eu disse:
- Toinha, eu perdi todo o dinheiro das
férias. Gastei ou alguém me roubou. Não sei, perdi. Não tem mais como sairmos
do aluguel. Agora me desculpe. Mais uma vez coloquei tudo a perder.
Ela olhou para mim, levantou-se e me deu
aquele abraço apertado. E falou baixinho ao ouvido:
- Está comigo.
Levei um tremendo susto.
- O que? Está com você?
Ela disse:
- Olha João, na sexta-feira a minha irmã
te viu lá no Zé Gatinho (Local onde comecei a beber, Zé Gatinho era o
proprietário do bar e gostava de humilhar os bêbados, principalmente quando não
tinham dinheiro para beber. Lembro-me que quando vivia com a Maria José,
chegava a seu bar implorava uma dose, mas como estava sem dinheiro, ele não
dava, mas dizia, posso até te dar uma dose se você ficar um tempo lá fora
dizendo bem alto: “Eu sou corno, a minha mulher me traiu com o pastor da
igreja.” E eu fazia isso por uma dose.) bebendo e veio correndo me avisar. Eu
disse a ela que não acreditava, mas mesmo assim fui averiguar. Saí daqui
chorando, sem acreditar. Tomara que não seja ele. Ai meu Deus, dá-me forças
para ajudá-lo. Preciso ser forte. Fui correndo. Chegando lá, vi você. Comecei a
me tremer toda. Sem querer acreditar. Já fazia mais de um ano que você não
bebia. De repente, te vi ali. Totalmente embriagado. Falando coisa com coisa.
Ninguém compreendia o que você falava. A única coisa que eu entendia era: essa
é minha esposa. Perguntei-lhe sobre o dinheiro, você meteu a mão no bolso e me
entregou tudo. Perguntei ao Zé gatinho se você já havia pagado a conta. Ele
respondeu-me que não. Paguei e pedi a ele que nada lhe falasse a respeito do
dinheiro. Pois tinha certeza de que você não se lembraria de nada do que estava
acontecendo. E ele me jurou que nada contaria a você. Ao mesmo tempo, eu tinha
medo de você melhorar e com o efeito da ressaca, pegar o dinheiro de volta e
gastar tudo. Tentei trazer-te de volta para casa. Porém, você dizia que mulher
não te domina e que iria quando quisesse. Você falava enrolado, mas dava para
entender. De repente você rasgou sua camisa. Confesso que naquele momento
fiquei com muito medo de você. Você me olhava com os olhos arregalados, como se
estivesse com muita raiva de mim. Naquela hora, pedi muita proteção a Deus, com
medo de que você fosse me agredir. Tudo bem, meu velho. Você não quer ir agora,
depois você vai. Estarei te esperando em casa. Eu chorava muito. Não queria
chorar, mas não dava para me controlar. Desculpe-me meu valho por eu ter ido
atrás de você, me perdoa. Porém, eu sabia que outros poderiam se aproveitar da
situação e gastaria todo o seu dinheiro. Por isso eu fui atrás de você. Fui
também por não acreditar em minha irmã. E sobre os seus sapatos e meias, fiquei
sabendo que você os apostou em uma queda de braço e os perdeu.
Eu perguntei a ela:
- E depois disso, o que aconteceu?
Ela respondeu-me:
- Você saiu do bar, deitou na calçada e
ali dormiu. Eu voltei para casa imaginando que quando você acordasse
retornaria. A tardezinha eu voltei ao bar do é Gatinho e não te encontrei.
Perguntei ao Zé Gatinho que me disse:
- Ele levantou, veio e me pediu uma
pinga, eu lhe disse, primeiro o dinheiro. Meteu a mão no bolso, não encontrando
nada, me pediu fiado. Implorou-me, mas eu não vendi. Disse até que falaria que
era corno no meio da rua, para ganhar a pinga. Essa história de dizer que era
corno era uma brincadeira que eu fazia com ele há muito tempo atrás. Mas não se
preocupe dona Antonia, em consideração a senhora, a partir de hoje, ele mesmo
pagando ou outra pessoa pagando para ele, em meu estabelecimento ele não bebe
mais. Não o proibirei que entre, porém ele não bebe mais aqui dentro. A senhora
vai conseguir, e eu vou te ajudar.
Dona Antônia continuou dizendo:
- Nisto eu saí, procurei-te em vários
lugares, mas infelizmente não consegui te encontrar. E também por que já estava
ficando tarde, e como você sabe aqui é muito perigoso. Chegando a casa, passei
a noite pedindo a Deus para que te guardasse. Quando amanheceu te vi lá na roda.
Conversei um pouco com você e tentei trazer-te de volta. Mas você não veio. Lá
você dormia, acordava, bebia. Embriagava-se de novo. Eu levava comida, porém
você não comia. Dava para os outros. Oh meu velho, como eu chorei por te ver
assim de novo. Anoitecia e você sumia. Até que um dos que bebia com você me
disse que você teria ido dormir na Zefa (espécie de abrigo dos desabrigados)
dormia lá e não sabia. Não via quando chegava e nem quando saía (amnésia
alcoólica). Até que no domingo você resolveu voltar. Isso foi o que aconteceu
meu velho.
Por dentro de mim havia um tremendo
vazio. A tristeza, o arrependimento. Os porquês daquilo tudo. Era uma grande
luta. Tudo bem, não perdi o dinheiro, nem ninguém tinha me roubado. O dinheiro
estava salvo. Porém, eu via o sofrimento de dona Antonia. Eu queria cuidar
dela. Ela tinha tido uma vida de muito sofrimento. Um casamento desfeito. Ela
tinha uma filha que a justiça havia determinado que ficasse com o pai. Por ela
não aceitar, entrou numa tremenda depressão. Sendo ela obrigada por isso usar
camisa de força. Sendo internada como louca. E agora eu? Como poderia causar
todo esse sofrimento a ela. Isso não podia continuar assim. Eu tinha que erguer
a cabeça. Ter firmeza e cuidar bem dela. Pois ela merece tudo de bom. Durante
todo esse tempo simplesmente provou com tudo que me amava. Conservarei esse
amor por toda a minha vida. E prometo que nunca tirarei a sua felicidade,
independente do que aconteça.
Toda essa linha de pensamento eu iria
fazer de tudo para conseguir cumprir. Mais uma vez dona Antonia me ajudou,
mesmo eu não merecendo. Eu estava de férias e queria aproveitar o tempo para
fazer alguma coisa. Pois quando eu voltasse a trabalhar o meu tempo ficaria
reduzido. Falei com dona Antonia:
- Graças a Deus e a você o dinheiro foi
salvo. E você sabe, a gente termina gastando sem nem perceber. Vamos até a
invasão ver se conseguirmos um lote. Porque pelo que estou sabendo toda a área
já foi invadida.
Nesta hora, tive uma surpresa, porque
dona Antonia já tinha resolvido tudo. Naquele domingo bem cedinho ela já tinha
ido à invasão, comprado um lote e pediu para alguém cuidar até que ela voltasse
comigo para limpá-lo.
Neste momento, chegou a hora de dar
aquele abraço bem apertado em dona Antonia, olhando profundamente em seus olhos
e dizer: Obrigado. Ela me disse:
- Meu velho, o que eu mais quero nessa
vida é um lugar para morar. Cansei de aluguel. Tenho certeza que abaixo de
Deus, é você que irá realizar o meu sonho.
Respondi-lhe:
- Nós iremos realizar. E prometo que jamais
desistirei dos teus sonhos. Aconteça o que acontecer nós conseguiremos a nossa
casa. Esse será o seu presente, em forma de gratidão, por tudo o que você tem
feito por mim.
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