domingo, 4 de setembro de 2011

O que meu cachorro tinha haver com minhas bebedeiras?


Meus irmãos não falavam mais comigo. Tinham vergonha de mim. Meus primos, primas não me conheciam mais. Um dia, eu estava na roda, dona Júlia, minha avó, passou e disse:
- Dê-me a felicidade de morrer e saber que você não bebe mais? – assim disse, mencionando o meu nome completo: João Carlos Novaes Santos.
Ela continuou dizendo:
- Quando isso acontecer, repetirei o seu nome, e direi que você é o meu neto.
Eu nada entendi, não estava embriagado, mas a mente não estava tão sã, para entender o que seria toda aquela conversa.
Dona Antonia fazia muitas tentativas para que eu não bebesse. Um dia, ela pediu a um amigo, que havia trabalhado comigo, para tentar convencer-me a voltar para casa. Porém eu não fui.
Certa feita, ela disse aos colegas da roda para não me deixaremeu beber. Um deles disse a dona Antonia:
- Se ele não beber aqui ele bebe em outro lugar.
- Mas ele não tem dinheiro. – Ela disse.
Ele sorriu e respondeu:
- João não precisa de dinheiro para beber. Ele chega ao boteco, canta uma música e assim sai de lá bêbado. Ele canta muito bem e as pessoas gostam. No entanto dona Antonia, nós poderemos até tentar impedi-lo que beba com a gente. No entanto, não posso prometer que isso dará certo. Ok?
Ela disse:
- Filho, obrigado, assim vocês estarão prestando uma grande ajuda.
E assim eles fizeram.
Um dia cheguei à roda e me impediram de beber. Fiquei com muita raiva. Imaginem o que fiz?
Tínhamos um cachorro da raça belga. Um cão de grande porte, muito valente. Adquirimos este cão logo após aquele incidente em nossa casa. Ganhei-o ainda filhote. Trouxemos na palma da mão. Ele deu muito trabalho. Ficou doente. Levamos ao veterinário que nos disse que dificilmente escaparia e que só Deus poderia ajudar. Dona Antonia não pensou duas vezes: pegou o Panda, nosso cachorro, e correu para a Igreja, lá chegando o pastor não queria deixá-la entrar com o cachorro. Ela então fez o maior escândalo e dizia:
- Porque não posso entrar? Quem vocês pensam que são? Está é a casa de Deus. E o meu cachorro está nas mãos de Deus. Portanto, nem você e nem ninguém irá impedir que Deus cure o meu cachorrinho. Se possível for irei atrás da justiça, mas entrarei com o meu cachorro.
Esse assunto chegou até a diretoria da igreja. Nesse momento as pessoas se aglomeravam no local, curiosas para saber o que aconteceria. Alguém gritava em voz alta: “Vocês não podem impedir, os animais foram criados por Deus.” Fizeram uma campanha de oração em favor da cura do Panda. Em uma semana, dona Antonia retornou ao veterinário que constatou que o Panda, nosso cachorrinho, estava completamente curado. Dona Antonia agradecia a Deus todos os dias, todas as horas. Como ela amava aquele cachorro. Ela conseguiu.
Voltando aquela cena em que não me permitiram beber. Recordando-vos, estava injuriado. Nesse dia o Panda já estava grande, já tinha uns oito meses. Portanto, todos o temiam. Sempre que estava em casa, sem beber, eu saia com ele para passear. Mas naquele momento, fui a casa, dona Antonia acho que eu tinha voltado para ficar, ela disse: “Oh meu velho, que bom que você voltou.” Tinha cerca de uma semana que eu não vinha em casa, só bebendo. Mas, naquele momento, eu não voltei para ficar. Peguei o Panda e fui direto para a roda. Dona Antonia nada entendia. Mas ficou preocupada, pelo fato de que eu não estava totalmente sóbrio. E ela sabia que quando eu estava bebendo não saia com o Panda. E naquela hora, ao ver-me saindo com ele, algo estava errado, pensou.
Pois bem, chegando a roda, fui em direção ao litro de pinga. Alguém tentou pegá-lo, mas o Panda era do tipo que saia puxando quem o levava. A corda era grande, sendo assim, temeram pegar o litro de mim. Segurei o Panda bem perto do litro. Aproximei-me, sentei e comecei a beber. Eles olhavam e diziam:
- Puxa João, deixa pra gente.
Eu respondia:
- Ninguém beber, e aquele que se atrever vão ter que enfrentar o meu cachorro.
Um dos que bebiam, pegou algumas pedras para tentar afugentá-lo, mas eu disse:
- Panda, pega!
E fingia que iria soltá-lo. Nesse momento ninguém se atreveu a enfrentá-lo, simplesmente me observaram até secar aquele litro. Nisso eu adormeci. Amarrei o Pando, amarrei em um cajueiro, no local onde colocávamos a pinga para protegê-la do sol. Quando acordei já estava anoitecendo, o Panda já não estava comigo. Perguntei para os colegas, ninguém queria falar nada. Eles estavam com muita raiva de mim, eu não os tinha deixado beber. Mas no meio deles, tinha um que era muito meu amigo, inclusive falava que um dia ele iria para de beber e sempre me convidava a fazer o mesmo. Ele disse:
- Olha João, dona Antonia veio aqui e o levou.
Eu tinha uma ligeira impressão que só poderia ser a dona Antonia, porque ninguém se atreveria a aproximar-se do Panda. E aquele colega que chamávamos de Zeca prosseguiu:
- A dona Antonia chegou num carro e levou o seu cachorro para casa.
O carro era de um amigo da família que sempre estava disposto a ajudar a dona Antonia, devido a sua incansável luta comigo, seu nome era Epitácio. Por muitas das vezes, saía altas horas da noite com a dona Antonia para me ajudar. Como me encontravam várias vezes deitado nas calçados e ao avisarem a dona Antonia que chamava logo o Epitácio para ajudar a me buscar para casa. No entanto, naquele dia foram buscar o Panda. Dona Antonia, por ter um ciúme doentio do Panda, ficou enfurecida comigo. E dizia: “O Panda é um presente de Deus para mim. Ela poderia ficar com fome, porém o Panda não.” Ela o tratava como um verdadeiro filho. Como ela ficou preocupada com seu cachorro. E agora, Epitácio ter que dirigir com uma fera feito o Panda o encarando. Foi difícil, eu sei, mas conseguiram chegar em casa.
Bem, agora que eu já sabia de toda a história, beberia mais um pouco e iria para os pinheiros dormir. Eu bebia até altas horas, nem se lembrava de casa. Dona Tonha chorava muito, preocupada comigo. Acendia velas e fazia promessas para todos os santos para que eu parasse de beber. O quintal de minha casa parecia uma capela por causa da quantidade dos restos de velas espalhados pelo chão. Ela sempre se preocupou comigo, desde o primeiro dia que me viu. Portanto, aquele dia eu iria dormir no pinheiro.

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