Até que um dia, totalmente embriagado,
deitado embaixo de uma árvore, alguém perguntou quem eu era, e alguém
respondeu: “Ele é o João Carlos, neto de dona Júlia, um cachaceiro.” A pessoa
perguntou: “Ele mora aonde?” e lhe disseram.
Aquela senhora que perguntou por mim,
tinha uma irmã muito amiga da minha avó. Foi, conversou com a irmã e disse que
iria me ajudar. Passaram-se alguns dias. Certo dia essa senhora chegou à casa
da minha avó e lá estava eu. Deitado no chão da sala, uma tremenda ressaca. A
cara toda inchada de tanto beber. Os pés inchados, mãos inchadas. Os olhos mal
conseguiam abrir. Todo sujo, maltrapilho. Estava arrasado. Nisto, o meu pai
também estava na sala. Ele tinha vindo para Brasília para fazer tratamento de
saúde.
A senhora disse: - Ele está mais velho
do que o pai. E disse a minha avó: - dona Júlia, eu irei cuidar desse quatro
dedos. Isso por me faltar um dedo na mão direita devido a um acidente na
infância. Mas isso é outra história.
Permaneceram ali conversando por algum
tempo. Nisto, comecei a despertar, com uma vontade enorme de ir para a roda,
apelido carinhoso dado a turma que permanecia durante o dia e parte da noite
bebendo. Quando fui me levantando ela me interrompeu com uma pergunta?
- Você quer ir morar comigo? Cuidarei de
você.
Poxa, aquela pergunta me deixou
perplexo. Pois ninguém jamais me faria um convite desses. Principalmente, se
tratando da forma na qual eu estava vivendo. Mas ela fez isso. Não pensei duas
vezes, a minha resposta foi sim.
A minha avó não gostava de mim. Muitas
vezes me expulsava de casa, jogando as minhas tralhas na rua dizendo:
- Some daqui seu cachaceiro, não te
quero em minha casa, você pra mim já morreu há muito tempo.
Eu chorava muito e dizia:
- Oh vó! Por favor, não me mande embora,
eu não tenho pra onde ir.
E ela me respondia:
- A parte de vó que eu tinha de você já
entreguei ao diabo há muito tempo.
Aquela palavra era a gota d’água que
faltava para ir ao boteco e bebia até cair.
Voltando a pergunta daquela senhora.
Como disse, não pensei duas vezes. Quero sim. Ela me disse: - Então não beba
mais hoje que virei te buscar.
A minha avó olhou para mim de novo, não
com olhar de desprezo como das outras vezes. Mas com olhar de satisfação, como
quem dizia: Graças a Deus estou livre desse ordinário. Some daqui, quero ficar
longe de você. Da mesma forma eu também não fazia questão de ficar ali por
muito tempo, pois já estava ao ponto de fazer uma besteira contra a minha
própria vida, devido às tantas humilhações por parte da minha avó. Mas ao mesmo
tempo eu pensava, ela gosta de mim, o que ela não gosta é a maneira como eu
estou vivendo. Tudo bem.
A noite chegou. Essa noite tinha um
parque de diversões na cidade, então resolvi dar um pulinho por lá. Não tinha
bebido durante todo o dia. Deus sabe o quanto me esforcei para não beber aquele
dia. Pois eu estava ansioso para chegar a hora de sair daquela situação de
humilhação que passava na casa da minha avó. Ali, naquele parque de diversões,
andando de um lado para o outro. Pensando em minha vida e como ela seria Dalí
em diante. Olhando as famílias, esposas, maridos, filhos todos se divertindo.
Ah, naquele momento a minha cabeça foi a mil. Veio tudo a tona. Meus filhos,
minha ex-mulher. Poxa! Começou a bater aquele sentimento horrível que por
muitas vezes me levou ao boteco. Mas naquele momento, tinha que ser diferente.
Durante todo o dia não bebi esperando por aquele momento. Sair da casa da minha
avó, ter a minha liberdade. Não ser tão humilhado. Não podia beber! Não naquele
momento! Pois botaria tudo a perder.
Meu suor descia frio sobre o rosto. A
língua ficava seca na minha boca. Sentia ao longe o aroma do álcool suavemente
em minhas narinas. Que vontade enorme de beber. Será que vou resistir? Assim me
perguntava. Eu estava quase entregado os pontos quando de repente, senti uma
mão sobre o meu ombro.
- Ah, você está aqui?
Quando olhei, era ela. Aquela senhora
que tinha me feito um convite para morar com ela. Poxa, como fiquei feliz. Toda
aquela ansiedade que sentia para beber sumiu como em um passe de mágica. No
momento fiquei atônito. Sem ação. Queria dizer algo, mas as palavras fugiam da
minha mente. Ela, percebendo o meu nervosismo disse:
- Calma, fique tranqüilo, você está em
boas mãos. Toda a sua família irá se orgulhar de você.
Na minha mente só vinha à seguinte
frase: “você merece essa ajuda João Carlos? O que você fez para merecer?” –
isso me deixava louco. Não sei se por medo de fazer aquela gentil senhora sofrer
ou uma por insegurança de não superar as expectativas dela: tornar-me um novo
homem, do qual a minha família se orgulharia. Mas era uma grande oportunidade,
tinha que encarar esse desafio. Fui para a casa daquela senhora. Ela, no
entanto, morava de aluguel em um só cômodo, uma cama, um pequeno guarda-roupa e
um filtro. Aquela senhora não tinha uma linda casa como eu imaginara. Mas, como
a sua boa vontade de me ajudar era tanta que, eu nem pensava em luxo, o que
mais queria era uma oportunidade de ficar longe da casa da minha avó. O
estranho é que me senti muito a vontade. O nervosismo, o medo, a insegurança,
tudo desapareceu, ela me disse:
- Olha João, como você vê, não sou rica.
Moro de aluguel nesse pequeno cômodo, mas terei todo o prazer em ter você aqui
comigo. Farei o possível e o impossível para te ajudar. Sei que você tem
passado por uma luta muito difícil nesses últimos tempos. Conversei muito com a
minha irmã a seu respeito. Ela me contou um pouco da sua história de vida. Por
tudo que você passou e ainda continua vivo, você, pra mim é um herói e merece uma
segunda chance. Mas lembre-se, vai depender muito mais de você do que de mim.
Eu estou pronta a te ajudar, mas ao mesmo tempo você terá que aceitar essa
ajuda e fazer a sua parte. Evitando os lugares em que você bebia os seus
supostos amigos e o violão, pelo menos por hora. Ficar até tarde nas ruas sem
motivos e coisas desse tipo. Pois tudo isso te levava a bebedeira. Comece a
evitar tais coisas que você verá o quanto nós iremos progredir em sua
recuperação.
Fiquei com os olhos fixos naquela
senhora e percebi que no momento em que ela falava, lágrimas desciam sobre o
seu rosto. Ela, no entanto, tentava disfarçar, mas por mais que tentasse não
conseguia. Eu fingia que não percebia nada, deixando-a a vontade. Ao mesmo
tempo admirando tão grande dedicação a mim. Eu vou conseguir. Estava decidido a
mudar de vida. Ainda existem pessoas que gostam de mim e irei preservar esse
carinho, não bebendo. Por fim ela me disse:
- João, você está há muito desempregado.
Por enquanto não quero que você se preocupe, pois estou trabalhando e a única
coisa que eu quero é que você não beba. Não sei se você sabe, mas eu durmo no
emprego e só estou em casa nos finais de semana. Portanto, durante a semana,
você vai ficar sozinho. Cuide das coisas e de você mesmo. Prometa-me que não
vai beber?
- Sim. – respondi.
Aquela senhora, mais velha do que eu,
não tinha como eu olhá-la como esposa. Pois quando fui para lá, não tinha essa
intenção. Porém, esse pensamento durou pouco tempo. Eu estava muito carente.
Necessitando de uma esposa. Quem sabe, assim de certa forma, eu consiga mudar.
Naquela primeira noite passamos
conversando, e logo amanheceu. Ela estava exausta. Eu por minha vez, estava
amando tudo aquilo. Uma gentil senhora, uma verdadeira amiga, da qual não
estava se importando com tantos motivos adversos, sua única vontade era me
ajudar.
Ao sair para o trabalho, ela me deu um
cartão telefônico e me disse:
- João, esse é o meu número, e com esse
cartão me ligue. Diz que quer falar com Antônia. Tudo bem?
Eu respondi:
- Tudo bem, dona Antônia, caso
necessite, ligarei.
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