domingo, 4 de setembro de 2011

Uma nova chance, alguém me viu no meio do nada e quis me ajudar


Até que um dia, totalmente embriagado, deitado embaixo de uma árvore, alguém perguntou quem eu era, e alguém respondeu: “Ele é o João Carlos, neto de dona Júlia, um cachaceiro.” A pessoa perguntou: “Ele mora aonde?” e lhe disseram.
Aquela senhora que perguntou por mim, tinha uma irmã muito amiga da minha avó. Foi, conversou com a irmã e disse que iria me ajudar. Passaram-se alguns dias. Certo dia essa senhora chegou à casa da minha avó e lá estava eu. Deitado no chão da sala, uma tremenda ressaca. A cara toda inchada de tanto beber. Os pés inchados, mãos inchadas. Os olhos mal conseguiam abrir. Todo sujo, maltrapilho. Estava arrasado. Nisto, o meu pai também estava na sala. Ele tinha vindo para Brasília para fazer tratamento de saúde.
A senhora disse: - Ele está mais velho do que o pai. E disse a minha avó: - dona Júlia, eu irei cuidar desse quatro dedos. Isso por me faltar um dedo na mão direita devido a um acidente na infância. Mas isso é outra história.
Permaneceram ali conversando por algum tempo. Nisto, comecei a despertar, com uma vontade enorme de ir para a roda, apelido carinhoso dado a turma que permanecia durante o dia e parte da noite bebendo. Quando fui me levantando ela me interrompeu com uma pergunta?
- Você quer ir morar comigo? Cuidarei de você.
Poxa, aquela pergunta me deixou perplexo. Pois ninguém jamais me faria um convite desses. Principalmente, se tratando da forma na qual eu estava vivendo. Mas ela fez isso. Não pensei duas vezes, a minha resposta foi sim.
A minha avó não gostava de mim. Muitas vezes me expulsava de casa, jogando as minhas tralhas na rua dizendo:
- Some daqui seu cachaceiro, não te quero em minha casa, você pra mim já morreu há muito tempo.
Eu chorava muito e dizia:
- Oh vó! Por favor, não me mande embora, eu não tenho pra onde ir.
E ela me respondia:
- A parte de vó que eu tinha de você já entreguei ao diabo há muito tempo.
Aquela palavra era a gota d’água que faltava para ir ao boteco e bebia até cair.
Voltando a pergunta daquela senhora. Como disse, não pensei duas vezes. Quero sim. Ela me disse: - Então não beba mais hoje que virei te buscar.
A minha avó olhou para mim de novo, não com olhar de desprezo como das outras vezes. Mas com olhar de satisfação, como quem dizia: Graças a Deus estou livre desse ordinário. Some daqui, quero ficar longe de você. Da mesma forma eu também não fazia questão de ficar ali por muito tempo, pois já estava ao ponto de fazer uma besteira contra a minha própria vida, devido às tantas humilhações por parte da minha avó. Mas ao mesmo tempo eu pensava, ela gosta de mim, o que ela não gosta é a maneira como eu estou vivendo. Tudo bem.
A noite chegou. Essa noite tinha um parque de diversões na cidade, então resolvi dar um pulinho por lá. Não tinha bebido durante todo o dia. Deus sabe o quanto me esforcei para não beber aquele dia. Pois eu estava ansioso para chegar a hora de sair daquela situação de humilhação que passava na casa da minha avó. Ali, naquele parque de diversões, andando de um lado para o outro. Pensando em minha vida e como ela seria Dalí em diante. Olhando as famílias, esposas, maridos, filhos todos se divertindo. Ah, naquele momento a minha cabeça foi a mil. Veio tudo a tona. Meus filhos, minha ex-mulher. Poxa! Começou a bater aquele sentimento horrível que por muitas vezes me levou ao boteco. Mas naquele momento, tinha que ser diferente. Durante todo o dia não bebi esperando por aquele momento. Sair da casa da minha avó, ter a minha liberdade. Não ser tão humilhado. Não podia beber! Não naquele momento! Pois botaria tudo a perder.
Meu suor descia frio sobre o rosto. A língua ficava seca na minha boca. Sentia ao longe o aroma do álcool suavemente em minhas narinas. Que vontade enorme de beber. Será que vou resistir? Assim me perguntava. Eu estava quase entregado os pontos quando de repente, senti uma mão sobre o meu ombro.
- Ah, você está aqui?
Quando olhei, era ela. Aquela senhora que tinha me feito um convite para morar com ela. Poxa, como fiquei feliz. Toda aquela ansiedade que sentia para beber sumiu como em um passe de mágica. No momento fiquei atônito. Sem ação. Queria dizer algo, mas as palavras fugiam da minha mente. Ela, percebendo o meu nervosismo disse:
- Calma, fique tranqüilo, você está em boas mãos. Toda a sua família irá se orgulhar de você.
Na minha mente só vinha à seguinte frase: “você merece essa ajuda João Carlos? O que você fez para merecer?” – isso me deixava louco. Não sei se por medo de fazer aquela gentil senhora sofrer ou uma por insegurança de não superar as expectativas dela: tornar-me um novo homem, do qual a minha família se orgulharia. Mas era uma grande oportunidade, tinha que encarar esse desafio. Fui para a casa daquela senhora. Ela, no entanto, morava de aluguel em um só cômodo, uma cama, um pequeno guarda-roupa e um filtro. Aquela senhora não tinha uma linda casa como eu imaginara. Mas, como a sua boa vontade de me ajudar era tanta que, eu nem pensava em luxo, o que mais queria era uma oportunidade de ficar longe da casa da minha avó. O estranho é que me senti muito a vontade. O nervosismo, o medo, a insegurança, tudo desapareceu, ela me disse:
- Olha João, como você vê, não sou rica. Moro de aluguel nesse pequeno cômodo, mas terei todo o prazer em ter você aqui comigo. Farei o possível e o impossível para te ajudar. Sei que você tem passado por uma luta muito difícil nesses últimos tempos. Conversei muito com a minha irmã a seu respeito. Ela me contou um pouco da sua história de vida. Por tudo que você passou e ainda continua vivo, você, pra mim é um herói e merece uma segunda chance. Mas lembre-se, vai depender muito mais de você do que de mim. Eu estou pronta a te ajudar, mas ao mesmo tempo você terá que aceitar essa ajuda e fazer a sua parte. Evitando os lugares em que você bebia os seus supostos amigos e o violão, pelo menos por hora. Ficar até tarde nas ruas sem motivos e coisas desse tipo. Pois tudo isso te levava a bebedeira. Comece a evitar tais coisas que você verá o quanto nós iremos progredir em sua recuperação.
Fiquei com os olhos fixos naquela senhora e percebi que no momento em que ela falava, lágrimas desciam sobre o seu rosto. Ela, no entanto, tentava disfarçar, mas por mais que tentasse não conseguia. Eu fingia que não percebia nada, deixando-a a vontade. Ao mesmo tempo admirando tão grande dedicação a mim. Eu vou conseguir. Estava decidido a mudar de vida. Ainda existem pessoas que gostam de mim e irei preservar esse carinho, não bebendo. Por fim ela me disse:
- João, você está há muito desempregado. Por enquanto não quero que você se preocupe, pois estou trabalhando e a única coisa que eu quero é que você não beba. Não sei se você sabe, mas eu durmo no emprego e só estou em casa nos finais de semana. Portanto, durante a semana, você vai ficar sozinho. Cuide das coisas e de você mesmo. Prometa-me que não vai beber?
- Sim. – respondi.
Aquela senhora, mais velha do que eu, não tinha como eu olhá-la como esposa. Pois quando fui para lá, não tinha essa intenção. Porém, esse pensamento durou pouco tempo. Eu estava muito carente. Necessitando de uma esposa. Quem sabe, assim de certa forma, eu consiga mudar.
Naquela primeira noite passamos conversando, e logo amanheceu. Ela estava exausta. Eu por minha vez, estava amando tudo aquilo. Uma gentil senhora, uma verdadeira amiga, da qual não estava se importando com tantos motivos adversos, sua única vontade era me ajudar.
Ao sair para o trabalho, ela me deu um cartão telefônico e me disse:
- João, esse é o meu número, e com esse cartão me ligue. Diz que quer falar com Antônia. Tudo bem?
Eu respondi:
- Tudo bem, dona Antônia, caso necessite, ligarei.

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