Confesso que foi difícil. Mas durante
toda aquela semana, não bebi. No sábado, dona Antônia chegou. A primeira coisa
que fez foi me parabenizar por não ter bebido durante toda a semana. Poxa, como
me senti bem por aquele reconhecimento. No início, como sempre, era tudo muito
difícil. Ela trabalhando, eu desempregado, eu não queria aceitar aquela
condição. Na outra semana comecei a procurar emprego.
No local onde morávamos de aluguel, a
proprietária tinha um filho que trabalhava em construção civil. Entrei em
contato com ele, e consegui uns bicos. Quando dona Antônia chegava ao final de
semana, tudo estava em perfeita ordem. Fazia as compras com o dinheiro que
ganhava na construção civil, era pouco, mas procurava sempre uma maneira de não
gastar com bebidas. O engraçado é que não tinha fogão. Certo dia, conversando
com um colega de trabalho, contei-lhe que não tínhamos um fogão e que tínhamos
que cozinhar na casa do visinho. Ele disse-me:
- João, eu tenho um fogão velho na minha
casa, iria jogar fora, mas funcionam as duas bocas, se você quiser pode
buscá-lo.
- Ah, eu quero! – respondi.
- Tudo bem, o fogão é seu. –
respondeu-me.
O interessante é que de onde eu morava
apara a casa dele dava cerca de 90 km, mas não medi esforços. Fui lá, busquei o
fogão. Detalhe, eu fui de ônibus. Na volta, os motoristas não queriam levar o
fogão, dizendo que ocuparia muito espaço. Mas sempre tem aquele famoso jeitinho
brasileiro. Agora, o difícil foi convencer que as baratas ficassem quietinhas.
Porque no momento que o ônibus começou a andar, foi barata para todo lado. As
mulheres gritando, gritos ensurdecedores. Os homens, por sua vez, na maior
gaiatice diziam: “peguem elas”. Vez por outras se ouvia o motorista dizer: “Sai
bicha!”
Para chegar ao meu destino, no Paranoá,
cidade onde eu morava, eu tinha que pegar outro ônibus. Mais uma luta. Nisto já
era noite, consegui. Passei pelo mesmo vexame. Nossa, foi uma loucura. Chegando
ao Paranoá, levei o fogão para casa, dei-lhe uma boa lavada, consegui um
botijão de gás, desentupi as bocas e tudo ficou perfeito. No final de semana
dona Antônia chegou. Nossa como ela ficou feliz. Senti-me tão útil. Poxa vida! Como
me senti bem.
A partir de então a nossa relação
começou a mudar. Comecei a perceber que ela poderia ser uma grande esposa me
ajudando a ser um grande marido. Tudo iria depender de mim. E foi assim que
começamos o nosso relacionamento. Agora uma responsabilidade maior, eu tinha
uma esposa, por sinal, uma pessoa que fez de tudo para me ajudar. Eu tinha de
alguma forma retribuir-lhe esse grande feito, a única forma era não bebendo.
O mais incrível, é que desde quando fui
morar com dona Antônia, não tinha bebido mais. Isso já fazia quase um mês.
Poxa, desta vez conseguirei. Dona Antônia, por sua vez, continuou trabalhando,
e eu na construção civil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário