domingo, 4 de setembro de 2011

A nova moradia, coquetel molotov no quintal, e algumas bebedeiras


No outro dia fomos cedo até a invasão. Eu ainda estava um pouco fraco, por causa não só da ressaca que ainda sentia, mas também por não alimentar-me direito. Mesmo assim enfrentei. Andamos bastante. Parecia que nunca chegaríamos. Cerca de uma hora e meia depois de ter saído, chagamos. Um lugar muito bonito. Uma área plana e bem valorizado. Valia a pena investir. Peguei uma enxada, dona Antônia outra e começamos a limpeza. Chegando a tarde já havíamos acabado. Retornamos ao Paranoá, chegando em casa combinamos qual seria a melhor maneira de nos mudar, pois não dava mais como permanecermos no aluguel. Já que dona Antonia não estava mais trabalhando e meu salário era pouco. Dessa forma nunca iríamos conseguir ter nada. De repente, uma grande idéia:
- Olha dona Antonia, vamos fazer assim, com o restante do dinheiro vamos comprar umas madeiras usadas, umas telhas, maderites e pregos, então faremos um barraquinho. Compraremos somente um saco de cimento para fazermos o piso e então cairemos pra dentro. Só assim conseguiremos sair do aluguel. Já morando lá, teremos condições e mais ânimo para realizarmos o seu sonho, que é a sua casa. Olha Toinha, vai dar trabalho, mas conseguiremos.
Fomos até a minha vó, dona Júlia, e comentamos com ela o nosso plano. Minha vó era muito rude. Mas em alguns momentos seu coração amolecia um pouco. Graças a Deus, nesse momento seu coração estava mole. Ao falar do nosso plano a ela disse então a ela:
- Vó, como nós iremos fazer apenas um cômodo não poderemos levar todas as nossas coisas, queremos deixar as nossas coisas por aqui e quando pudermos crescer um pouco o barraco, viremos buscar-las. Mas não poderemos continuar a pagar aluguel, será que a senhora poderá nos ajudar?
Ela disse que poderia. Nem acreditei, porém era verdade. Como combinamos fizemos compramos as madeiras e construímos o nosso barraco. Ficou um pouco torto, no entanto não caí em nossas cabeças. Detalhe, o nosso dinheiro não deu para comprar o cimento. Dona Antonia então improvisou forrando o chão com uma lona preta. Ficou ótimo. Que alegria sentia dona Antonia. Naquele barraco de madeira que ficou todo tordo, pois eu não sou profissional. Pouco sei de como fazer barraco. Mesmo assim, eu via a sua alegria, que agora explodia em seu rosto. Comigo mesmo jurava que não mais faria dona Antonia sofrer. Por Deus eu jurava.
Os dias foram passando. Continuei de férias. Visitava minha vó periodicamente para saber sobre os móveis que por lá deixamos. Era um guarda-roupas, uma cama de casal e uma geladeira velha. Isso era tudo que tínhamos e dávamos muito valor. Certa feita viu em um parachoques de um caminhão que dizia: “Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho.” Essa frase sempre me chamou atenção, e sempre trago-a na memória. Valeu a pena, pois hoje sei amar as mínimas coisas.
Minhas férias estavam chagando ao fim. Certo dia, a invasão foi cercada pela polícia. Tal invasão tinha crescido assustadoramente. Em menos de um mês já eram mais de 12 mil famílias, cerca de 50 mil habitantes. A justiça não queria aceitar a gente morando por ali. Alegava que por se tratar de um terreno da União, teríamos de nos retirar dali. Ali tinha um homem que sempre defendeu a nossa causa. Seu nome, Pedro Barbudo. Juntamente com outros homens, tais como Enio Bastos (O advogado dos pobres) se uniram com o povo e conseguiram defender a nossa causa. Não só vieram a polícia de choque, mas também a cavalaria, inclusive carros tanques o que fez parecer uma guerra. Mas não abrimos mãos dos nossos sonhos, a nossa casa própria.
Dona Antonia, no entanto chorava muito. Tinha medo que não conseguiríamos vencer e voltaríamos a estaca zero. Mas eu sempre a encorajava dizendo que tudo iria dar certo. Isso a acalmava, porém ainda chorava. Lutamos bravamente, sem recuar. Até que o nosso advogado conseguiu uma liminar que suspendia a retirada dos invasores. Que festa! Que alegria! O povo pulava e gritavam os nomes desses dois “heróis” Pedro Barbudo e Enio Bastos (Advogado dos pobres). Novamente pude enxergar aquele brilho, aquela felicidade nos rosto de dona Antonia. Isso me deixava maravilhado. Conseguimos, a vitória é nossa!
Mais uma vez inventei de ir comemorar essa vitória. Tomei uma pequena dose de pinga. Isso foi o suficiente para passar toda aquela noite bebendo. A partir daí não consegui ficar nenhum só dia sem beber. Parecia que eu estava mais forte, pois não ficava mais embriagado. Conseguia agora manter as minhas responsabilidades. Puxa, como fui imaturo.
Terminadas as férias, voltei ao trabalho. Não era mais o mesmo. Antes das férias fui aquele funcionário dedicado, exemplar. Fazia de tudo para mostrar o meu potencial. E agora como seria? Fiquei um ano sem beber. Esse povo não me conhece bebendo. Agora bebo todos os dias. Não posso beber em serviço. Já havia perdido vários empregos por isso. Fui funcionário publico, perdi por causa da bebedeira. Fui vendedor em uma loja, perdi por causa da bebida. Fui porteiro em um condomínio de luxo, perdi por causa da bebida. Trabalhei em uma conceituada panificadora, também perdi por causa da bebida. Essa lista é quilométrica, não posso perder, de maneira alguma, esse emprego. Dona Antonia precisa de mim.  Meus filhos precisam de mim. E eu por minha vez, preciso muito desse emprego. Não decepcionarei nem a mim nem a ninguém. Continuarei da forma de antes. Que Deus me ajude!
Não consegui mais ir à igreja. Vez por outra eu ia, mas não tinha forças para continuar. Periodicamente a justiça enviava soldados para nos retirar de lá. Porém, ajudados por Pedro Barbudo e por Enio Bastos, sempre conseguíamos vencer. Aproximadamente quatro meses depois conseguimos então aumentar o nosso barraco. Construímos mais dois cômodos de madeira. O que possibilitou que dona Antonia mandasse buscar os móveis que haviam ficado na casa de minha vó. Ela teve que mandar buscar antes de construirmos, pois minha vó alegava que tinha que alugar o barraco e que as nossas coisas estavam dando a ela esse prejuízo. Buscamos os móveis e deixamos na casa do visinho. Interessante é que depois disso o barraco nunca foi alugado. Mas tudo bem. Nosso barraquinho agora tinha dois cômodos a mais, fizemos o piso. Estava um brinco. Isso deixava dona Antonia muito feliz, alegre e cantando a toa.
Eu continuava trabalhando, de vez enquanto enchia a cara no trabalho, meus colegas me escondiam do chefe. Dessa forma fiquei nessa empresa um ano e nove meses. Até que um dia o nosso supervisor me disse:
- João, a partir de hoje, você será o novo fiscal da empresa.
Não acreditei. Um cachaceiro como eu, fiscal? Mas esse supervisor me conheceu antes das férias. Eu não era mais o mesmo. Tinha mudado para pior. Mas ao mesmo tempo eu fiquei muito feliz pelo convite. Na verdade, eu tinha feito uma boa base. Pois no início, antes das férias, sempre fui um funcionário dedicado, responsável e com muita responsabilidade. Se for para me justificar, pelo meu retrospecto, eu mereci essa promoção. De bom grado eu aceitei, acreditando que poderia mudar com essa nova responsabilidade.
Ao chegar em casa, contei para dona Antonia, isso a deixou preocupada, por saber que seria muito difícil para mim, principalmente por que estava bebendo muito e chegava em casa quase todos os dias embriagado. Sem contar às noites que passava na rua bebendo. Novamente a tristeza invadiu o meu lar.
Dona Antonia fingia estar feliz. Por muitas das vezes eu a encontrava chorando dentro do quarto. Para mim não havia motivos para tantas lágrimas. Porém, isso era exatamente porque eu tinha voltado a beber e ela tinha muito medo de não conseguir aquilo que ela tanto sonhou, que era me ajudar.
Um dia, dona Antonia me disse:
- João, me ajuda a te ajudar.
Eu fingia não entender e saía para o primeiro boteco que via na frente. Eu não conseguia ficar mais sóbrio. No trabalho, agora fiscal, responsabilidade dobrada. Na verdade, quem terminava fazendo o meu serviço eram os próprios garis. Eu havia me transformado em um verdadeiro irresponsável. Não ligava para nada. Meus colegas estavam assustados e se perguntavam como uma pessoa pode mudar tanto em tão pouco tempo. Eles não entendiam. Não me conheceram bebendo. Pois quando eu entrei na empresa não bebia. Agora sou um verdadeiro pau d’água. Isso para eles foi um grande choque. Meus colegas faziam de tudo para me ajudar, esforçando-se para que eu não perdesse o emprego. Até que um dia um dos fiscais me disse:
- João, eu gosto muito de você, quero o seu bem. Dei-te o maior apoio quando você foi apontado para ser fiscal. Ensinei-te o trabalho, enfim, ajudei-te da melhor forma possível. Agora ao te ver dessa forma, João, bebendo e embriagado no serviço. Quantas vezes eu via os garis, que trabalham com você entrando contigo completamente embriagado. João, o supervisor perguntou por você e eu disse que você estava bem. Porém ele me perguntou por que os garis entraram com você no vestiário. Eu lhe disse que não sabia. Portanto, meu amigo, você lembra-se do seu primeiro dia? Você trabalhou extraordinariamente muito bem. Gostei muito mesmo do seu desempenho. No final te parabenizei dizendo que você tinha tudo para crescer dentro da empresa. Pois bem João, Infelizmente você tinha tudo para crescer dentro da empresa, hoje você não tem. Mas te pergunto: Onde está aquele João que nos impressionava com o seu dinamismo, com seu desempenho e responsabilidade? Meu amigo, hoje você falta serviço e quando vem para trabalhar, ao invés de trabalhar faz é dar trabalho por estar embriagado. O que está acontecendo com você?
Naquele momento as lágrimas desciam como chuva, eu não conseguia mais me controlar. Não dava mais para me controlar. Voltei gradativamente a beber demais. Eu estava bebendo mais que antes. Dona Antonia fazia de tudo para me ajudar, mas dessa vez sem sucesso. Puxa como ela sofria comigo. Eu saía para beber e não voltava para casa. Ela não dormia preocupada comigo. Saía altas horas da noite para tentar me encontrar, mas não encontrava. Novamente fiz da minha vida um grande caos.
Terminando o fiscal de falar comigo disse:
- João, eu quero nesse final de semana ir à tua casa, passar o dia com você.
Ele era um ótimo amigo, e tudo isso era exatamente para evitar que eu fosse novamente ao boteco. Tudo bem, e ficou assim. No próximo final de semana ele iria para minha casa. Chegando em casa, falei com dona Antonia, ela aceitou de muito bom gosto. Cuidou de todos os preparativos para receber o meu amigo. Eu sempre comentei sobre ele. Principalmente pelo fato de ainda continuar trabalhando por causa dele. Por ser ele o responsável por qualquer irresponsabilidade dos fiscais, nunca citava meu nome em seus relatórios. Por isso eu continuava trabalhando.
Chegando o final de semana, ele foi para minha casa. Chegou bem cedo, como prometera. Conversamos bastante. No dia anterior não bebei. Foi difícil, mas consegui. Conversamos sobre o trabalho, sobre o salário, sobre a vida. Enfim, falamos sobre muitos assuntos. Ele conheceu dona Antonia, amou-a. principalmente a forma da qual nós nos conhecemos. E a sua determinação em me ajudar que pusera em seu coração. E mesmo passando por todas essas decepções comigo, jamais desistira. E ele dizia para ela:
- A senhora, para mim, é uma grande heroína. A senhora vai conseguir. Nunca desista. Continue com essa tua força. Eu acredito nessa tua força, nessa tua garra. Você esta de parabéns.
Dona Antonia ficava maravilhada com aquelas palavras. Confesso que eu também. Mesmo que eu não estava me esforçando para não beber. Mas, de alguma forma, as palavras do meu amigo mexeram comigo. E a primeira frase que vinha na minha mente era: “João me ajude a te ajudar.” Naquela hora senti um arrepio sobre todo o meu corpo. Alguma coisa tinha que mudar em minha vida.
A invasão era um local muito perigoso. Havia muitos assaltos e furtos nas casas. Pessoas eram assaltadas na rua independente do horário. Andavam armados. A polícia até que passava por lá, sem poder fazer muita coisa, pois a invasão era imensa. Muitas atrocidades aconteciam em nossa região. Mas me proíbo em contar detalhes.
Nesse mesmo dia, aconteceu em minha casa um fato que faço questão de comentar-lhes. O fiscal estava por lá esse final de semana. As horas avançaram sem que percebêssemos. Almoçamos, lanchamos, rimos, choramos. Contamos histórias e ouvimos estórias. Contamos piadas, relembramos coisas boas e ruins. Aproximando por volta das 18 horas. Em meu lote não havia ainda muros. Dona Antonia, cercou-o apenas com madeiras usadas que ela comprava e vendia para assim ajudar nas despesas. Não tinha água encanada. Com muita luta conseguimos abrir um poço. Tinha um pequeno portão que ficava todo o tempo fechado. Como disse, era um lugar muito perigoso. Não podíamos arriscar. A porta da frente estava aberta. De repente, não sei por qual motivo, alguém lançou um coquetel molotov em minha casa. Existia um sofá velho em minha casa, que alguém havia jogado fora, eu o peguei e coloquei em minha casa. O vidro de gasolina, como fosse uma grande lamparina, foi lançado. Nossa sorte foi que o vidro não quebrou, caiu sobre o nosso sofá. A gasolina com o fogo derramou. O fogo subia sobre os maderites. O sofá todo em chamas. Dona Antonia vestia um vestido rodado, o fogo subiu sobre suas vestes. O amigo focou todo queimado. Queimei-me também. Foi uma gritaria. Entramos em pânico. Os gritos de socorro se ouviam ao longe. Mesmo assim lembrei que existiam uns tambores de água que sempre estavam cheios. Peguei o edredom ensopei com água e abafei o fogo. Primeiro de dona Antonia, lançando sobre ela o edredom. Depois o meu colega e também o fogo que estava em minhas pernas. Deu tempo de salvar uma boa parte do barraco. Não sei com fui tão rápido, mas consegui. Ao sairmos ninguém avistamos. Meu amigo ficou horrorizado. Fomos então até a polícia, comunicamos o fato, porém nada foi resolvido. Meu amigo disse:
- Graças a Deus estamos vivos.
Ele era evangélico, e naquele momento nos convidou para fazermos uma oração agradecendo a Deus por ter poupado as nossas vidas. Após orarmos ele despediu-se prometendo voltar. Ele então voltou, e voltou para ficar, pois comprou um lote na invasão e tornou-se também um dos moradores. A partir de então as coisas não foram, mas as mesmas. Eu queria de qualquer forma vender o meu lote e sair dali.

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