domingo, 4 de setembro de 2011

Do primeiro casamento à venda da casa e mais vergonhas


Agora casado, crente. Que alegria! Muita alegria mesmo. Acabei esquecendo-me que era crente e tomei uma cervejinha para comemorar. Esse foi o início da minha segunda derrota. Uma cerveja, duas três. Vinho pinga, cigarro e só Deus é quem sabe o que mais. O dia inteiro na rua embriagado, sujo. À noite não fui para casa, a esposa estava preocupada, a igreja estava preocupada, minha avó preocupada, tios, primos todos preocupados. Sem saber ao menos onde eu estava. Cheguei em casa no outro dia, bêbado. Que decepção! Mas já tínhamos casado e ela não queria desfazer o matrimônio. Passei vários meses bebendo, tentava voltar para a igreja, mas não conseguia. O tempo foi passando, oito anos se passaram. Nesse período tivemos três filhos maravilhosos dos quais tenho muito amor. A Ruth, a Ester e o Tiago.
Certo dia, eu querendo justificar as minhas bebedeiras, falei para a esposa:
- Vamos vender a casa e sair deste lugar. Vamos para Minas, pois aqui tem muita violência, não dá para criar filhos num lugar como este. Que futuro nós poderemos dar a eles?
Nisto, já saía e enchia a cara. Devido as minhas bebedeiras desenfreadas, fui mandado embora do emprego, pois só chegava bêbado, isso quando chegava. Pois muitas vezes saía para trabalhar e parava no primeiro boteco que encontrava, e lá permanecia até a noite.
Fiquei desempregado. E agora? Casado, três filhos. Desempregado: cachaça, muita cachaça. Noitadas, violão. Tinha que esquecer. A mulher, coitada, tinha que se virar para as crianças não morrerem de fome. Um dia ela disse:
- Vamos vender a casa, como você disse e vamos para Minas, quem sabe lá as coisas melhoram.
E assim fizemos. Vendemos a casa e fomos para Minas. A minha família já sabia de toda a minha história. A minha mãe já tinha partido para o andar de cima, falecido. A minha irmã já tinha casado, os meus irmãos já não moravam mais em Minas. E o meu irmão caçula teve um problema mental e precisava de cuidados especiais. E agora eu, um verdadeiro pau d’água, procurando ajuda. Mas desta vez tinha que ser diferente, eu não sou mais só. Tenho filhos, esposa, pessoas que precisam de mim. São minhas responsabilidades. Com o dinheiro da venda da casa, resolvi colocar um pequeno armazém, mais uma idéia. Não vou vender pinga em doses, venderei somente o litro fechado, assim o fiz. No início, tudo bem. Um mês, dois meses. Ah, graças a Deus! Nenhuma gota. Vou voltar para a igreja. Quem sabe agora eu consiga, afinal já faz dois meses que não bebo. Então, voltei para a igreja.
Tínhamos mudado para Januária em Minas Gerais, às margens do Rio São Francisco. Lá faz muito calor e tem uma praia de água doce. Um dia pensei, vou fechar a mercearia, e vou até o rio tomar um banho. As pessoas se reúnem nessa praia, peixe assado, pesca e muita bebida. As mulheres com fio dental e até mesmo top less existe por lá. Fiquei vislumbrado com essa situação. De repente, “amigos” das antigas começaram a aparecer. Afinal, quase dez anos haviam se passado. Voltaram os elogios. “e aí João, tocando muito violão!” “Cara, esse é o João, toca violão e canta muito bem.” “e aí? Ainda gosta de tomar uma?” Quando menos se espera, aparece um violão. Comecei a tocar e a cantar. As pessoas que estavam próximas começaram a aproximarem-se cantando e dançando. Poxa, que alegria! De repente, a famosa pergunta: “uma bebida para o tocador. Toma uma João?” “Ah, não sei!” “que é isso? Só uma?” “tudo bem!” Uma, duas, três e outras tantas. Quando dei por mim, estava preso. Que desespero! “Porque estou preso?” Um dos presidiários que estava na mesma cela que eu disse: “Poxa cara, você estava lá na praia tocando, o pessoal dançando, todos muito felizes. E de repente, você começou a beber sem parar e tirou a roupa e ficou mostrando para as meninas. Uns queriam te lixar, outros diziam que você estava muito bêbado e não sabia o que estava fazendo. Foi quando alguém ligou para a polícia e você foi preso, por atentado violento ao pudor.” “Meu Deus! Eu fiz isso?” comecei a chorar copiosamente. Poxa vida! Eu estava bem na igreja com minha família, meses que não bebia. Por quê? Porque fui beber novamente? Nisto a notícia já estava em minha casa. Coitada da esposa. Lembro-me quando ela foi chegando, olhos avermelhados de tanto chorar. Pernas e mãos trêmulas por estar passando por todo aquele constrangimento e sem querer acreditar no que estava acontecendo. Fiquei detido uma noite e um dia. Por fim, fui liberado. No entanto, tive que varrer toda a delegacia e o pátio. Mais uma decepção. Não sabia onde enfiar a minha cara. Continuei por mais alguns dias. Mas comecei a perceber que o meu casamento estava chegando ao seu fim. Em pouco tempo não tínhamos nada. Continuei bebendo cada vez mais. Resolvi voltar para Brasília. Agora sem emprego, sem casa, sem móveis. Pois tive que vender tudo para poder voltar. Solução: Jesus! Voltarei para a igreja. Um mês, dois meses. Graças a Deus que não bebo. Não estou fichado, mas os bicos que fazia davam para sobreviver. Morávamos em um barraco de fundo na casa da minha avó da qual foi a que mais foi contra o nosso casamento ao ponto de chegar em casa e não encontrar nem a mulher nem os filhos. Pois eles tinham saído quando ela os expulsou, por conta de terem jogado um balde d’água no quintal de casa. Fiquei revoltado, fui beber novamente. Sofrimento, muito sofrimento. Fiz como antes. Fui novamente para a igreja. Trabalhei, fiz algumas economias e consegui comprar uma casa. Agora já trabalhando, na igreja, vários meses sem beber. Tudo estava perfeito. Nossa que felicidade.
Um dia estando no trabalho, eu senti muita vontade de beber. Trabalhava à noite de vigia. E naquela noite eu tinha que beber. Era um desejo incontrolável. Eu tinha que fazer alguma coisa. Fui ao síndico e disse: Senhor acabei de receber um telefonema do meu irmão que disse que minha avó teve um derrame e não cessa de chamar por meu nome. Por favor, senhor, preciso ir até lá, pois não estou em condições psicológicas de trabalhar essa noite, mesmo que eu pague esse dia com outro. E ele disse: vai filho cuide da sua avó. Não se preocupe. – era o que eu queria, os meus olhos estavam inchados de tanto chorar. E tudo isso não passava de uma grande mentira, era só um pretexto para beber. Fui para um lugar chamado CONIC, fiquei lá durante toda a noite, bebendo, dançando, fazendo tudo que eu queria.
Nessa época já tínhamos conseguido comprar uma casa num lugar chamado Céu Azul, cidade que fica no entorno de Brasília. Trabalhei bastante, dia e noite. Fiz algumas economias, estava na igreja. E nesse dia, ou melhor, nessa noite, aconteceu tudo isso comigo. Abandonei a igreja de novo. Três dias depois cheguei em casa. Para minha surpresa, a casa estava fechada. Os móveis que a gente já tinha conseguido não estavam mais. Olhei pela fechadura e observei tudo isso. Onde está minha mulher? Fui a casa do visinho e perguntei. Ele me respondeu: “Maria José saiu, levou toda a mudança e foi direto para casa da irmã.” – Por algumas vezes, por não agüentar todo esse sofrimento ela fazia esse tipo de coisa. Ia embora, mas eu ia atrás: prometia mudanças, voltar para a igreja, cuidar bem dela e das crianças, e ela coitada, acabava acreditando.
Eu cumpria a promessa durante algum tempo, mas logo começava tudo de novo. Dessa vez não seria diferente. Fui atrás. Chegando à casa da irmã, falei com minha esposa, fiz mil e uma promessas. Ajoelhei, pedi perdão, implorei, falei até mesmo que me mataria se ela não voltasse. Não consegui convencê-la. Fui embora. Fiquei alguns dias na casa da minha avó. Ela achava isso tudo maravilhoso, pois ela nunca aprovou o nosso casamento e sempre dizia que não viveríamos muito tempo. Olhava para mim com aquele olhar de desprezo, como se dissesse “não falei? Não quis me ouvir? O azar é seu. Se vire.” Continuei bebendo durante algum tempo.

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