Certo dia, o encarregado da obra me
disse:
- João, infelizmente a obra está
chegando ao fim, e quando isso acontece temos que fazer alguns cortes. Você
trabalha muito bem, gostamos de você. Mas infelizmente, o serviço da sua área
acabou. Portanto, não é necessário vir. Mas se porventura pintar outra obra,
entrarei em contato.
- E agora, como seria daqui para frente?
Mas não poderia me abater, teria que dar
a volta por cima. Eu recebi os dias trabalhados, mais alguns benefícios que o
encarregado me deu. Fiz uma boa compra. No final de semana, dona Antônia
chegou. Conversei com ela, e como havia de se esperar, ela me deu um forte
abraço e um beijo, e depois me disse:
- O mais importante pra mim é você não
beber.
Confesso que isso me fortalecia muito.
Irei continuar com esse mesmo propósito, não beber. Mas tinha medo por que
pensava: “Quantas vezes já tentei e não consegui.” Mas dessa vez vai ser
diferente, dona Antônia está me ajudando.
Os dias foram passando, semanas, meses e
o desespero começou a tomar conta de mim. Eu saía a procurar emprego sem nada
conseguir. Entreguei vários currículos, sem que adiantasse de nada. As portas
estavam totalmente fechadas. Nisso foram 4 penosos meses embora. Não vou beber,
tenho que ser forte.
Um belo dia, um amigo me disse:
- João hoje lá no CAIC estará recrutando
pessoas para trabalhar como gari, vai lá, quem sabe você consiga.
Aquela foi à melhor notícia que alguém
poderia me dar. Fui correndo para o CAIC. Chegando lá uma fila enorme me
esperava. Não poderia desistir. Essas pessoas estão passando pelas mesmas
dificuldades das quais estou, ficarei até o fim. Permaneci na fila entre quatro
a cinco horas, aguardando a minha vez. Fui atendido, e para minha surpresa no
outro dia comecei a trabalhar.
Poxa, mais um obstáculo ultrapassado e
tudo isso sem precisar beber.
Confesso que me balancei, a ansiedade
era grande. Preocupação, eu tinha assumido uma responsabilidade. Tinha que
cumpri-la de todas as formas. Dona Antônia aguardava ansiosa que eu tivesse
sucesso, e em hipótese alguma eu não poderia decepcioná-la. Pois ela acreditou
em mim e me fez acreditar também. Pois achava eu que não havia mais esperanças,
e agora eu estou conseguindo. São quatro meses sem beber nenhum gole. Esse seria
o início de uma grande vitória, pois nunca tinha conseguido isso, exceto quando
estava na igreja. A minha felicidade era radiante, e agora consigo um emprego
de carteira assinada, vou ter o meu salário no final do mês. Que alegria. As
coisas começavam a melhorar.
No outro dia, fui para o trabalho, super
feliz. Chegando lá me entregaram o uniforme e me explicaram qual seria o meu
serviço. Esforcei-me ao máximo para que todos gostassem do meu desempenho. E
não foi diferente. Ao final do dia, o nosso fiscal me disse:
- João, você está de parabéns, gostei do
seu trabalho. Continue assim, você tem tudo para crescer dentro da empresa.
- Obrigado senhor! - Respondi.
Dona Antônia ainda não sabia, pois
dormia no emprego. Por minha vez, eu decidi não ligar para avisá-la, queria
fazer-lhe uma surpresa, e assim o fiz. Mas a vontade de ligar era muito grande,
para avisá-la. Continuei trabalhando, me esforçando ao máximo, impressionando a
todos com o meu dinamismo. Até que chegou o final de semana. Geralmente, no
final de semana, eu ia até o ponto de ônibus encontrar-me com dona Antônia.
Naquele final de semana foi diferente. Tinha um grande feito, que para mim
merecia uma comemoração especial. Fiquei de longe observando ela que vinha com
duas sacolas na mão a passos largos. Quem sabe preocupada por não ter notícias
minhas. E só Deus sabe o que se passava em sua cabeça. Quando ela me viu, que
sorriso lindo. Ela então gritou:
- Graças a Deus por você estar vivo.
Correu ao meu encontro e então me disse:
- Oh João meu velho, não me mate do
coração. Por que você não me ligou!
Eu disse:
- Vamos. Em casa eu lhe conto tudo.
Eu, por minha vez tinha preparado tudo.
Coloquei o uniforme pendurado bem na entrada da porta. Não tinha como perceber.
O barraquinho estava todo arrumado, tudo em perfeita ordem. Fizemos o percurso
de volta, eu sem falar nada. Ela, por sua vez me fazia muitas perguntas, eu
educadamente respondia a todas, sem deixar que ela perceba a grande alegria que
estava sentindo. Chegando em casa, deixei-a entrar primeiro. Ao entrar, ela
percebeu o uniforme: calça, camisa laranjadas. Não tinha como perceber. Fixou
os olhos e disse com ar de espanto:
- Que roupas são essas?
Tentei enrolar mais um pouco para
deixar-lhe mais curiosa. Mas o desejo de compartilhar aquela alegria era tão
grande, que não teve como guardar mais. Tive que contar-lhe toda a verdade.
Contei tudo, sem deixar escapar nada. Poxa, dona Antônia pulava de alegria.
Agradecia a Deus, me abraçava, beijava. E aquele momento foi, e sempre será
inesquecível em minha vida.
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