domingo, 4 de setembro de 2011

Mudando de emprego


Certo dia, o encarregado da obra me disse:
- João, infelizmente a obra está chegando ao fim, e quando isso acontece temos que fazer alguns cortes. Você trabalha muito bem, gostamos de você. Mas infelizmente, o serviço da sua área acabou. Portanto, não é necessário vir. Mas se porventura pintar outra obra, entrarei em contato.
- E agora, como seria daqui para frente?
Mas não poderia me abater, teria que dar a volta por cima. Eu recebi os dias trabalhados, mais alguns benefícios que o encarregado me deu. Fiz uma boa compra. No final de semana, dona Antônia chegou. Conversei com ela, e como havia de se esperar, ela me deu um forte abraço e um beijo, e depois me disse:
- O mais importante pra mim é você não beber.
Confesso que isso me fortalecia muito. Irei continuar com esse mesmo propósito, não beber. Mas tinha medo por que pensava: “Quantas vezes já tentei e não consegui.” Mas dessa vez vai ser diferente, dona Antônia está me ajudando.
Os dias foram passando, semanas, meses e o desespero começou a tomar conta de mim. Eu saía a procurar emprego sem nada conseguir. Entreguei vários currículos, sem que adiantasse de nada. As portas estavam totalmente fechadas. Nisso foram 4 penosos meses embora. Não vou beber, tenho que ser forte.
Um belo dia, um amigo me disse:
- João hoje lá no CAIC estará recrutando pessoas para trabalhar como gari, vai lá, quem sabe você consiga.
Aquela foi à melhor notícia que alguém poderia me dar. Fui correndo para o CAIC. Chegando lá uma fila enorme me esperava. Não poderia desistir. Essas pessoas estão passando pelas mesmas dificuldades das quais estou, ficarei até o fim. Permaneci na fila entre quatro a cinco horas, aguardando a minha vez. Fui atendido, e para minha surpresa no outro dia comecei a trabalhar.
Poxa, mais um obstáculo ultrapassado e tudo isso sem precisar beber.
Confesso que me balancei, a ansiedade era grande. Preocupação, eu tinha assumido uma responsabilidade. Tinha que cumpri-la de todas as formas. Dona Antônia aguardava ansiosa que eu tivesse sucesso, e em hipótese alguma eu não poderia decepcioná-la. Pois ela acreditou em mim e me fez acreditar também. Pois achava eu que não havia mais esperanças, e agora eu estou conseguindo. São quatro meses sem beber nenhum gole. Esse seria o início de uma grande vitória, pois nunca tinha conseguido isso, exceto quando estava na igreja. A minha felicidade era radiante, e agora consigo um emprego de carteira assinada, vou ter o meu salário no final do mês. Que alegria. As coisas começavam a melhorar.
No outro dia, fui para o trabalho, super feliz. Chegando lá me entregaram o uniforme e me explicaram qual seria o meu serviço. Esforcei-me ao máximo para que todos gostassem do meu desempenho. E não foi diferente. Ao final do dia, o nosso fiscal me disse:
- João, você está de parabéns, gostei do seu trabalho. Continue assim, você tem tudo para crescer dentro da empresa.
- Obrigado senhor! - Respondi.
Dona Antônia ainda não sabia, pois dormia no emprego. Por minha vez, eu decidi não ligar para avisá-la, queria fazer-lhe uma surpresa, e assim o fiz. Mas a vontade de ligar era muito grande, para avisá-la. Continuei trabalhando, me esforçando ao máximo, impressionando a todos com o meu dinamismo. Até que chegou o final de semana. Geralmente, no final de semana, eu ia até o ponto de ônibus encontrar-me com dona Antônia. Naquele final de semana foi diferente. Tinha um grande feito, que para mim merecia uma comemoração especial. Fiquei de longe observando ela que vinha com duas sacolas na mão a passos largos. Quem sabe preocupada por não ter notícias minhas. E só Deus sabe o que se passava em sua cabeça. Quando ela me viu, que sorriso lindo. Ela então gritou:
- Graças a Deus por você estar vivo.
Correu ao meu encontro e então me disse:
- Oh João meu velho, não me mate do coração. Por que você não me ligou!
Eu disse:
- Vamos. Em casa eu lhe conto tudo.
Eu, por minha vez tinha preparado tudo. Coloquei o uniforme pendurado bem na entrada da porta. Não tinha como perceber. O barraquinho estava todo arrumado, tudo em perfeita ordem. Fizemos o percurso de volta, eu sem falar nada. Ela, por sua vez me fazia muitas perguntas, eu educadamente respondia a todas, sem deixar que ela perceba a grande alegria que estava sentindo. Chegando em casa, deixei-a entrar primeiro. Ao entrar, ela percebeu o uniforme: calça, camisa laranjadas. Não tinha como perceber. Fixou os olhos e disse com ar de espanto:
- Que roupas são essas?
Tentei enrolar mais um pouco para deixar-lhe mais curiosa. Mas o desejo de compartilhar aquela alegria era tão grande, que não teve como guardar mais. Tive que contar-lhe toda a verdade. Contei tudo, sem deixar escapar nada. Poxa, dona Antônia pulava de alegria. Agradecia a Deus, me abraçava, beijava. E aquele momento foi, e sempre será inesquecível em minha vida.

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